A dúvida não era pré-requisito
A leitura que se ouve é a de que a fé funciona como quantidade: é preciso reunir o bastante dela antes de pedir, e a dúvida desqualifica o pedido. Quem lê o capítulo inteiro encontra outra coisa.
O pai chega descrevendo anos de convulsões e termina o relato com uma condição: “se tu podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós, e ajuda-nos”. A dúvida dele está declarada, e está apontada para o lado de fora, para o poder de quem ouve. Jesus devolve a palavra exatamente onde ela foi posta: “Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê”. O “se podes” muda de endereço. Sai do poder de quem cura e vai para a fé de quem pede.
É aqui que a leitura corrente esperaria a cena da fé conquistada. O homem resolveria a dúvida, faria a profissão firme, e só então receberia. Não é o que está escrito. O que ele diz é: “Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade”, as duas coisas na mesma frase, sem que uma cancele a outra. E o texto segue direto para a ordem que expulsa o espírito. Entre a confissão da descrença e o atendimento não há etapa nenhuma.
A objeção mais forte a essa leitura está no mesmo capítulo, três versículos antes: Jesus chama aquela geração de incrédula, e a repreensão é dura. Só que ela cai sobre outra coisa. Vem depois de os discípulos tentarem e não conseguirem, e mira quem já deveria saber. Ao pai, que chegou de fora e disse o que tinha, não foi exigido mais do que ele tinha.
O que o texto exclui, portanto, não é a dúvida. É a encenação. O homem podia ter dito só a primeira metade da frase e soado melhor. Disse as duas, e é a segunda metade que o texto guardou.
Fontes
- Marcos 9.17-27, Almeida Corrigida Fiel